Ciclo um
“O futuro esquecido” suspirou a voz que enfraquecia com o despertar. “Lembre-se”
Allix abriu seus olhos e olhou para os vidros quebrados na janela, tanto os remendos improvisados. Tanto as cortinas quanto os casacos felpudos e cobertas que a cobriam, caíram durante a noite. Seu corpo estava dolorido por causa do frio e já sabia que continuaria assim por todo o dia.
Ela sentia que era importante lembrar e tentou inutilmente recordar seu sonho enquanto contemplava sua mão direita que emitia um calor que distorcia o ar a sua volta de dentro de uma grande bacia vazia ao lado da sua velha cama. A água evaporara durante a noite e havia marcas de queimado próximo da cama. Iria precisar de mais água na noite seguinte.
Não queria se levantar, nem mesmo para se cobrir novamente. Mas ela tinha que fazê-lo. Procurou a pequena bolsinha de crochê com o baralho do seu pai dentro, nunca saia de perto dele. Seu pai trabalhava desenvolvendo cartas para Atizaya[1], um jogo muito popular tanto para crianças quanto adultos. Todos os anos eram lançados vários baralhos temáticos para colecionar. O favorito era o dos sonhos que também era o dela. Era como se segurar aquele maço lhe concebesse forças para continuar.
O dia estava frio e nublado, não haveria sol para entrar pela janela e provavelmente choveria durante o dia, com muito esforço ela empurrou o armário para tapar a janela.
Logo ao entrar no banheiro, se deparou com sua figura e cadavérica no espelho, seus cabelos rutilos pareciam palha velha, sem vida, seus olhos verdes estavam cinzentos, escovou seus dentes fracos e amarelos, lembrou-se porque evitava sorrir. Tinha vergonha deles. Ela achou aquilo engraçado por alguns momentos, sentir vergonha era um luxo que não tinha há muito tempo. Com um pouco de maquiagem escondeu suas olheiras e aparentava usar um estilo mais sombrio e perigoso.
Em uma das muitas pilhas de roupas, escolheu algumas novas e quentes para usar por baixo das velhas, esquentava bastante e impedia que as pessoas percebessem que ela estava desnutrida.
Allissandra ou Allix como era carinhosamente chamada pela sua família e amigos, costumava ser apenas uma garota simples e esforçada que morava com sua mãe em uma casa confortável, tinha alguns colegas divertidos e fazia alguns trabalhos ocasionais pra conseguir um dinheirinho extra. Isso até alguns meses atrás quando houve o terrível e impiedoso bombardeio que praticamente devastou todas as cidades litorâneas por toda a costa do mar opala, temendo novos ataques muitas pessoas abandonaram seus lares com tudo dentro. Allix aproveitou para “ajudar” seus vizinhos e guardar suas coisas até que voltassem. O que não aconteceu.
Todas as noites ela saia com os outros saqueadores para ver se ainda encontrava alguma coisa de útil nas casas abandonadas. Havia recolhido tanta coisa que sua casa parecia até um deposito de joias, roupas, perfumes e outros objetos de valor, tudo o que uma garota do seu tamanho poderia carregar. Como morava em um bairro nobre recolheu os mais valiosos bens que qualquer um poderia cobiçar.
Mas estavam em tempos de guerra, em uma cidade devastada e sem recursos, artigos de luxo não valem nada. Logo surgiu o arrependimento de não ter pegado o que realmente importava… Comida.
No inicio dos saques quando pode entrar livremente nas casas abandonadas para recolher comida, nunca imaginara que acabaria nesta situação. A princípio acreditava que tinha comida suficiente para anos, mas todos os perecíveis como carnes e vegetais tiveram que ser comidos antes que estragassem logo nos primeiros dias e boa parte da comida foi perdida graças a sua mão direita.
Lágrimas escorreram por seu rosto quando se lembrou de toda a comida que ela desperdiçou nas primeiras semanas. O ultimo mês fora terrível, ela comia apenas restos, não queria que sua mãe doente soubesse a situação terrível em que estavam e lhe dava toda comida que conseguia para fingir que tinham fartura. A cada dia ela estava mais fraca e com tonturas. Por dois dias não comera nada, precisava se alimentar.
Foi à cozinha preparar o café da manhã, no armário só havia comida para sua mãe e ela não podia ceder à tentação. No quintal não havia nada na sua pequena horta ou no pomar para comer.
Ela colocou a comida da mãe na panela, geralmente levaria horas até o prato estar pronto, mas ela tinha sua mão direita, a maldita mão direita que tanto lhe causava problemas, era o único momento em que tinha alguma utilidade. Ela tocou a palma da mão no fundo da panela e em poucos segundos estava pronto. Então sentiu o fundo da panela amolecer por alguns instantes… Sua mão estava ficando pior.
Estava cedo o suficiente para verificar o lixo das outras casas a procura de alguma coisa. Os tempos não andavam muito bons pra ninguém e desperdício de comida não estava na moda, o máximo com que podia contar era o resto de comida no fundo de uma embalagem. Alguns ratos estavam reunidos aquilo geralmente era um bom sinal. Estavam em cima de algumas verduras que cheiravam forte, mas ainda tinham muitas partes boas. Aquela manhã não foi tão ruim uma caixa de leite azedo que poderia deixar ele coalhado. Há muito tempo não tinha uma refeição tão boa só precisava de um pouco de carne. Já fazia muito tempo ela não comia carne, lembrava-se de ter ouvido que em alguns países do oriente comiam carne de rato. Talvez…
Ciclo dois
Aquamarina era uma linda cidade litorânea cheia de belas construções antigas, cercada por bosques e o cristalino mar opala. Um verdadeiro paraíso que vivia basicamente do turismo. O mundo parecia em paz, nas últimas décadas a guerra havia sido apenas um conceito vago para seus habitantes. Coisa de tempos remotos ou de lugares distantes, dos quais mal se ouvia falar.
Agora era um lugar triste e desolado. O céu estava escuro e cinzento graças a fumaça amaldiçoada do Império Noza[2], as ruas estavam úmidas e cobertas de destroços, algumas bombas não detonaram e fizeram cercas improvisadas em volta.
As pessoas caminhavam para seus trabalhos com a cabeça baixa com poucas esperanças de uma vida melhor, as ruas estavam molhadas e cheias de destroços. Em algumas casas usavam-se panos e pedaços de madeira no lugar das paredes.
O vento assobiava uma triste e melancólica melodia para o rapaz de boas roupas e longos cabelos negros que vagava pelos destroços desarmando e recolhendo pedaços de bombas em sua mochila cargueira que levava ao lado do corpo.
Ele cuidadosamente seguia um caminho anotado em um bloco de papel até uma região muito diferente do resto da cidade. Era impossível não perceber as áreas incólumes a toda destruição causada pelos bombardeios, como se até mesmo a mesmo a poeira evitasse esses quarteirões.
Nesta região sem vestígios da guerra ele viu uma velha senhora passeando com seu cachorrinho como se fosse um dia normal em uma vizinhança tranquila.
Ciclo três
Todas as manhãs a senhora Plotka saía para passear com seu belo basset, Agosto, enquanto o céu ainda estava um pouco escuro. As pessoas andavam dizendo que depois da guerra aquele bairro já não era tão seguro para se andar sozinha pelas ruas. Mesmo depois dos vizinhos irem embora, mesmo depois do bombardeio, a senhora Plotka não fugiu.
- Podemos não ser um país muito rico, mas temos um povo muito forte. Logo a guerra terminará. – Plotka era muito patriota e sempre conversava com seu cachorrinho enquanto passeava. – Muitos fugiram com medo e as ruas andam cheias de pedintes.
Só para confirmar suas expectativas, encontrou uma das piores desclassificadas chafurdando em seu lixo.
- Olhe para isso Agosto. – O cachorrinho fungou concordando. – Aqueles marginais jamais me expulsarão de minha própria casa. Além disso, já estou velha demais pra sentir medo, não é mesmo?
Agosto concordou. Plotka se aproximou e começou a reconhecer a triste figura.
- Agosto! Aquela menina não é a filha daquela jovem viúva? Ivana! Ela teve uma filha ainda muito jovem e inexperiente, não era de se espantar que tenha esse final. Sempre fora uma criança largada, que corria pelas ruas, sem nenhuma supervisão.
A senhora Plotka não pode evitar um mal estar e uma vontade de vomitar ao ver aquela garota raquítica lambendo as embalagens de comida. Enojada, ela esperou discretamente que a garota fosse embora para evitar um encontro com tão patética figura. Ela era uma mulher educada, sua família apesar de um começo humilde se tornou muito importante na alta sociedade e uma coisa que aprendera todos esses anos era a ter descrição e evitar qualquer tipo de escândalo ou mesmo inconveniência.
- Também não é de se espantar que escolhesse nosso lixo para furtar. – Comentou para o cachorro. – Mesmo com todos os problemas do país eu me recuso a sacrificar qualquer conforto que meu dinheiro possa proporcionar nesse fim de vida.
Por uma mórbida curiosidade espiava com o canto dos olhos como se estivesse fazendo outra coisa.
- A menina evita usar a mão direita e não possui muita habilidade com a esquerda. Talvez esteja machucada. – Agosto concordou. – Se estavam com tantos problemas, eu ajudaria de bom grado. Até mesmo acolheria a menina se fosse o caso. Qual é o nome dela? Ali alguma coisa… Allix… Eu sou uma velha sozinha e aquela menina precisa de educação, desde como se portar a como se vestir. E ela poderia ser uma boa companhia pra você. Gostaria de ter uma amiguinha, Agosto?
A senhora Plotka não era uma pessoa ruim e nunca negaria um prato de comida nem mesmo ao pior dos criminosos se ele lhe pedisse. Ela ficou por alguns instantes imaginando o bem que faria para aquela garota e teve uma terrível vontade de abordá-la.
A menina não percebera que uma enorme e ameaçadora ratazana se aproximava do seu rosto. Aterrorizada a velhinha ficou sem palavras. A única coisa que a menina podia fazer era tentar aparar o terrível animal com sua mão direita.
Naquele instante, milhares de coisas passaram pela cabeça da pobre senhora, a imagem da menina agonizando em um hospital por causa de um daqueles ratos apertou seu coração. Uma lufada de ar quente a jogou pra trás e a fez cair no chão, no momento seguinte viu uma terrível fogueira aonde antes era seu lixo. Nem ao menos entendeu o que aconteceu.
Por alguns instantes ela procurou os aviões que estavam bombardeando, mas não havia nada.
A menina levantou e saiu correndo desesperada.
A velha tentou compreender o que estava acontecendo, estava machucada e teve dificuldade em se levantar.
Quando se aproximou seu coração disparou e compreendeu o que estava acontecendo, no asfalto derretido a marca da mão da menina estava bem visível. Tudo fazia sentido.
Só uma coisa ecoou em sua mente e pela primeira vez em 30 anos ela sentiu medo.
Bruxaria.
Ciclo quatro
Allix estava sentada no chão, olhando espantada pra o inferno flamejante que há poucos segundos era uma pilha de lixo, até mesmo as pedras da calçada haviam derretido. Olhou para o animal que lhe assustou. O rato não passava de uma mancha irreconhecível. Então ela olhou para sua mão direita, suas unhas estavam longas e podia ver as marcas em sua pele, por tanto forçar para manter o punho cerrado.
Seu coração batia acelerado, sem pensar apoiou sua mão direita no chão e escorregou, sujando sua roupa com o asfalto líquido. Seu queixo doeu com a batida. Com toda velocidade se levantou e correu para a casa antes que alguém a visse, pelo menos ainda tinha o leite azedo.
Ao voltar para casa o pânico diminuiu e voltou a pensar quando teve que colocar o leite no chão para abrir a porta, só podia usar a mão esquerda, estava muito ansiosa, deveria ter verificado se alguém a tinha visto. Mas agora já era tarde demais. Para seu terror havia uma pessoa quase em frente a sua casa. Como ela não o vira? Era um rapaz, um pouco mais velho do que ela. Ele estava olhando pra ela. Ele tinha visto tudo. Como podia ter sido tão descuidada.
Ele se aproximou e ela recuou assustada, novamente perdeu o equilíbrio e derrubou o leite, com o susto apanhou a caixa com sua mão direita. Por alguns instantes teve uma sensação de alivio por salvar o leite, mas em seguida foi substituído pelo mais puro pavor. Sua mão estava fria, seu poder maldito havia lhe abandonado quando mais precisava dele, não passava de uma garota subnutrida e indefesa que mal podia ficar de pé.
Quando percebeu o rapaz já estava a sua frente com a mão estendida, oferecendo ajuda pra se levantar. Era bonito, seu cabelo era negro e comprido, coisa que os garotos de lá não usavam, vestia roupas novas, tinha um olho de cor púrpura e a pupila estranha, o outro verde e brilhante, um mais belo que o outro. Mas o que fez sua respiração parar foram às marcas em sua pele. Havia um x estilizado em sua testa e estranhos símbolos em metade do rosto, descendo pelo seu pescoço até sua mão estendida. Não eram simples tatuagens, aqueles símbolos eram rebuscados e complexos, como ideogramas de alguma língua antiga.
- Até quando vai me deixar esperando? – O rapaz permaneceu oferecendo sua mão para ajudá-la a se levantar.
Receosa Allix esticou o braço e apanhou sua mão que estava gelada e como o resto do corpo tremia como um cachorrinho recém-nascido.
- Você está com frio? – Perguntou o rapaz.
- N-Não.
- Posso perguntar por que está tremendo?
- E-eu não sei.
- Então somos dois! Já temos alguma coisa em comum.
- V-você viu! Você viu! Vai contar pra eles? Você vai contar pra eles que você viu o que eu fiz?
- Se quiser que eu guarde segredo eu não conto pra ninguém.
- Eu… Eu quero sim. Eu posso te pagar… Espere! Espere! – A garota correu para dentro da casa em busca de algo de valor. A maioria dos saques eram objetos para garotas, havia troféus de ouro, medalhas, pequenas estátuas de ouro, Joias… Ela tinha joias. Eram tantas preciosidades que não tinha mais aonde guardar. Ela pegou um grande porta-joias de madeira polida e coloração natural com as bordas de bronze esverdeadas em forma de baú que estava cheio até a boca com joias que não tinham documentos ou inscrições. Era difícil negociar joias com nomes gravados e a falta dos documentos tornava impossível dela saber quem eram os verdadeiros donos para que um dia pudesse devolver.
- Tome! – Allix entregou a caixa. – Eu peguei algumas coisas das casas abandonadas. Se isso não for o suficiente eu posso oferecer outra coisa.
- Não precisa!
- Eu posso conseguir mais. Se quiser volte outro dia que eu consigo mais.
Ele olhava para ela com interesse. Talvez estivesse interessado em seu corpo. Garotos são assim. Allix sorriu com a intenção de agradá-lo, foi um reflexo voluntário, ela não queria que ele visse seus dentes. Ninguém se interessaria por uma garota em estado tão deplorável.
- Posso perguntar quem são eles? – Perguntou curioso.
- Os caçadores de bruxas. – Ela respondeu.
- Então é disso que você tem medo? – Ele tinha um sorriso simpático. Não estava nem um pouco interessado ou preocupado com os caçadores de bruxas.
- O que são essas coisas no seu rosto?
- Isso? Eu tenho desde que era bebê. Colocaram em mim pra fazer um sacrifício ou qualquer coisa assim…
- Foram bruxas? Escutei que faziam sacrifícios, mas pensei que era bobagem. Deve ter sido horrível! Você odeia bruxas por causa disso? – Por um instante Allix quase se esqueceu da sua situação.
- Não tenho nada contra bruxas! – O rapaz deu de ombros. – Nem me lembro.
- Você não é um dos que atacaram a cidade?
- Não! Eu cheguei aqui hoje!
- Você é como um daqueles caçadores de fortuna do mercado? Faz qualquer coisa pelo preço certo?
- Acho que algumas coisas eu não faço por preço nenhum. Outras eu faço de graça. – Ele sorriu.
- Existem feiticeiros mercenários. Você é um feiticeiro?
- Não. Mas se quiser eu posso te apresentar um.
A resposta fez o sangue de Allix congelar. – Você veio me levar?
- Se quiser que eu te leve pra algum lugar, eu posso te levar.
A resposta deixou a garota perturbada. – Me desculpe! Eu tenho medo de você. Eu… Eu tenho que ir agora!
- Não precisa ter medo de mim. – Ele segurou seu braço como um raio. – Se você tiver algum problema e eu puder ajudar…
- Quando eu era pequena… Eu queria ser uma bruxa… Fazer mágica…
- Parece que isso se realisou. – Ele virou a cabeça em direção à rua onde Allix queimou tudo.
- Acho que é por isso que dizem pra ter cuidado com o que deseja. – Ela disse como se não tivesse ar suficiente nos pulmões enquanto fitava para aqueles olhos ao mesmo tempo gentis e assustadores. – Eu também sonhei varias vezes com um garoto, com um olho de cada cor que me levava embora. Eu tenho minha mãe… Ela precisa de mim… Por favor, vá embora. – Ela implorou com lagrimas nos olhos.
- Tudo bem! Não precisa se assustar que eu já vou indo. – Ele parecia compreender muito mais do que poderia e com um sorriso meio torto gentilmente a deixou ir. – Espere um pouquinho! – O garoto retirou um pacote que carregava dentro de uma sacola- Por minha culpa você derrubou seu leite. Não é muito, mas espero que…
Timidamente o rapaz foi embora carregando o porta-joias, sem nem ao menos olhar o que tinha dentro. Allix abriu a caixa que ele tinha lhe dado. Havia uma pequena caixa de leite com achocolatado, dois sanduíches embrulhados, um salgadinho, uma barra de cereais e uma fruta. Para ela aquilo valia mais do que todo seu armário de joias.
Ciclo cinco
O quarto de dona Ivana era alegre e aconchegante, diferente do resto de toda casa que era triste e maltratado.
Fazia muito tempo que ela estava doente e se movimentava apenas entre o quarto e o banheiro. Dormia tanto que já não conseguia distinguir o dia da noite. Ela ficava muito triste ao ver sua dedicada e amorosa filha cuidando dela, mas sempre se esforçava pra dar um sorriso.
Allix a acordou para tomar o café da manhã e seus remédios como fazia toda manhã, provavelmente voltaria a dormir por mais algumas horas enquanto sua filha estava fora, por isso com muito esforço se mantinha acordada para ficar com sua filha mais um tempinho.
O sorriso das duas era maravilhoso e por alguns instantes esqueciam-se de todos os problemas e conversavam sobre o futuro glorioso, que em breve teriam quando Allix terminasse os estudos e sua mãe melhorasse.
Ivana tinha muita dificuldade de comer, mas se esforçava e não deixava sua filha perceber nenhum problema, mesmo que doesse muito para engolir.
Allix estava sentada ao lado da cama de sua mãe muito feliz, quando se levantou escorregou no tapete. Com um sorriso Ivana se virou para ampará-la segurando sua mão direita quando para sua surpresa, sua filha virou o corpo abruptamente e atingiu o chão com o rosto.
Ivana ficou espantada com aquela atitude, o nariz de sua filha sangrava com abundancia e ela tinha uma expressão de horror no rosto. Com lágrimas nos olhos, ela correu para fora do quarto.
Ela não entendeu nada, nem tinha forças pra correr atrás da filha, apenas ficou se perguntando o que acontecera e porque havia um cheiro de queimado no quarto.
Ciclo seis
Allix segurava o cutelo enquanto olhava para sua mão direita, a maldita mão direita. Ela era culpada por tudo de ruim que acontecia.
Ela se lembrou de seu pai. De como ele era divertido, sempre contando historias de suas aventuras como um mago e que não estava mais lá. Havia desaparecido em uma de suas viagens.
Tinha os ouvidos bem afiados e quando se é criança as pessoas tem o habito de falar como se você não estivesse ou não pudesse compreender. Seu pai era apenas um empresário que provavelmente foi pego em meio a algum ataque a civis.
Ela queria acreditar que magia não existia, que quando a guerra chegou não havia nada de sobrenatural, os aviões que invadiram a cidade e as bombas que caíram eram criações do homem. A caça as bruxas dos militares não passava de uma desculpa para acabar com possíveis rebeldes ou opositores políticos. Bruxaria era coisa de pra ignorantes e supersticiosos. Havia rumores sobre os feiticeiros dos países aliados, academias de magia e coisas assim, mas sempre achou que não passava de títulos pomposos de militares contra um bando de fanáticos religiosos.
Ela era uma garota educada, pretendia fazer faculdade e tornar uma pessoa importante no futuro, não era uma ignorante que culpava coisas como mágica.
Mas após o bombardeio isso mudou. A palma da sua mão direita esquentou assustadoramente como se fosse um ferro de passar e a cada dia piorava. Sem nenhum controle sua mão fazia as coisas mais estranhas. Ela era uma bruxa e não havia nada de bom nisso. Não podia pedir ajuda a ninguém, se o exercito descobrisse seria levada e sua mãe ficaria sozinha.
Mas o pior de tudo era que não havia nenhum controle, o poder falhou quando precisava se proteger e estava ficando muito perigoso e se tivesse tocado em sua mãe, ela estaria com uma queimadura terrível ou talvez coisa pior. E podia sentir que aquilo estava sugando sua vida, perdia força e peso visivelmente e em poucos dias estaria mais debilitada que sua mãe.
Ela só teria que baixar o cutelo e tudo estaria resolvido, já não usava essa mão há muito tempo, seus dedos já estavam atrofiados de tanto forçar o punho fechado. Poderia falar que sofrera um acidente, todos sabiam quanto ela trabalhava duro, que sua mãe estava doente e todos os seus sacrifícios. Todos teriam pena dela e seria bem tratada, teria ajuda. Nunca precisara de ajuda quando tinha as duas mãos, mas agora…
Até então ela pode cuidar da mão e até pensar em alguma utilidade, mas agora ela era um perigo para sua mãe. Sua mãe que fez tanto por ela e que a amava. Não podia permitir que nada a machucasse, nem ela mesma.
Ela baixou o cutelo com toda força.
Não foi o suficiente.
Ciclo sete
Mayara Engenhoca olhava desanimada pela janela fazendo desenhos com sua respiração. Em meio aos comportados jovens cadetes da improvisada central dos Arcanos[3] ela se destacava como uma rosa vermelha em um buquê de lírios. Era uma bela caboclinha com cabelos meio descoloridos e pele morena, além de sua aparência exótica, o que mais chamava a atenção era sua falta de porte militar. Quem visse acreditaria que não passava de uma bagunceira fantasiada debruçada no sofá.
- Mas que frio! – Resmungou. – Eu pensei que Aquamarina fosse o balneário de Mineralia[4]. Nem parece que estamos no final do verão.
- São as consequências do ataque do Império Noza. – Yuna Ogami a comportada cadete e não menos exótica japonesinha que sentava ao seu lado explicou. – Existe uma camada de partículas magnéticas bloqueando o sol e as transmissões.
- Se eu soubesse disso não teria vindo. – Bufou desanimada.
- Rembrandt Kazam chegou! – Yuna comentou apontando para o garoto alto com um olho de cada cor entrando no salão, terminando.
Antes que Mayara pudesse dizer algo Yuna o abordou com um olhar de poucos amigos.
- Por onde você andou Oni-san? – Yuna chamava Kazam carinhosamente de Oni-san que significa irmão mais velho em japonês.
- Eu dei uma volta. – Respondeu com muita tranquilidade. – Eu não fui muito longe. Só quis esticar as pernas.
- O que é que você tem na cabeça? – Bufou e estapeou a testa dele. – Tem ideia da situação deste lugar? Não faz muito tempo que este lugar foi atacado pelo império Noza, também conhecido como Império da Magia! Magia! Compreende? As pessoas daqui estão assustadas. A última coisa que precisam é de um cabeludo com símbolos místicos estampados na cara. E ainda saiu com suas roupas civis. O que você tinha na cabeça?
- Desculpe! – Kazam se lamentou. – Eu deveria ter pensado nisso.
- Deveria mesmo! – Mayara concordou. – Ainda bem que Yuna e eu te acobertamos. Se Derek descobrisse, estaria fazendo um escarcéu até agora.
- Então eu agradeço. – Ele fez uma reverencia para amiga oriental.
- Eu não te acobertei de graça. – Yuna gemeu curiosa. – Como é que está lá fora?
- Estatisticamente falando, o lugar não está tão destruído assim. Concentraram os ataques em áreas com muitos prédios ou grandes construções como mansões e mercados. Nenhum alvo em particular. Acho que queriam apenas aterrorizar a população e conseguiram. Praticamente não há ninguém nas ruas.
- E então? Encontrou o que procurava? – Mayara já esticou a mãozona. – Trouxe alguma coisa pra mim?
- Acho que sim! – Respondeu pensativo. – Encontrei uma caixa de joias numa pilha de escombros. – Kazam puxou um colar de esmeraldas que pareciam azeitonas. – Acho que vai gostar disso.
- Como é que ninguém achou isso antes? – Perguntou apreciando o presente.
- Estava em uma área delimitada, ao lado de uma bomba que não detonou.
- E o que você estava fazendo chafurdando uma pilha de escombros ao lado de uma bomba que não detonou? – Mayara perguntou desconfiada.
- Pegando outro presente pra você. – Kazam tirou do casaco um pequeno dispositivo metálico.
- Um cartucho incendiário que foi solto pelas bombas de fragmentação![5] – Mayara começou a dar pulinhos de ansiedade. – Acho que é uma FG-40 ou 48.
- Cuidado! – Disse Yuna aflita. – Isso é perigoso.
- Eu desativei. – Kazam respondeu em um tom enjoado.
- Eu não acho que é uma boa ideia. – Yuna insistiu. – Se alguém descobrir podem te obrigar a devolver tudo, além da bronca que vão tomar.
- Então é melhor você se esforçar pra ninguém ficar sabendo. – Kazam colocou nas mãos de Yuna um bracelete de prata com pequenos diamantes. – Vão pensar que você é cúmplice.
- Rembrandt Kazam! – Mayara chamou sua atenção segurando uma risada. – Corrompendo jovens cadetes de boa reputação agora?
- Nem tudo são flores. – Kazam puxou um pedaço de madeira queimado com uma espécie de enfeite um pouco derretido e entregou para Yuna que estava admirando o bracelete no reflexo da janela. – Pode fazer uma analise disso?
- Nem preciso de análise pra dizer que isso foi causado por magia. Posso sentir nos meus ossos. – Yuna apanhou da mão de Kazam. – Isso é um enfeite de portão não é mesmo?
- Exatamente!
- Metade dele fora derretido como se tivesse se aproximado de uma fonte de calor intenso, como uma fornalha ou lava vulcânica. Um incêndio não faria isso e uma explosão o teria deixado todo retorcido.
- Então o império atacou com magia além da nuvem bloqueando o sol? – Mayara já ficou curiosa.
- Não! – Kazam já a aliviou. – Isso foi feito por uma pessoa da cidade. Alguém que não consegue controlar seu poder.
- Se a sua teoria está correta e existe uma pessoa que pode fazer isso sem controlar seu poder, é um perigo para ela mesma e os outros. – Yuna guardou o enfeite. – Essa pessoa deveria ser encontrada e detida.
O clima descontraído acabou com a entrada de vários oficiais. Arrumaram uma lousa e um mapa. Os cadetes se acomodaram para escutar as instruções do vigoroso coronel Black. Ele fez uma breve apresentação dos outros oficiais o tenente coronel Bloom, a capitã Mizuki Inazuma, o capitão Hand e as primeiras tenentes Madison e Volonaki, depois começou seu discurso.
- Todos vocês já devem ter conhecimento sobre a atual situação. Estamos na cidade de Aquamarina que recentemente sofreu vários ataques dos Nozas, assim como outras cidades ao longo do mar opala. Isso fez com que o país de Cristal se interessasse em fazer parte da aliança dos reinos unidos para aproveitar do tratado de não agressão com o Império Noza que manteve a pás nos últimos anos. Pensamos que suas forças estavam abaladas pela guerra contra o país de Taurus[6], mas o ultimo ataque demonstrou o contrario. Esperamos que o ocorrido influencie outros países a entrarem para a aliança e se tonem membros da federação, pois além de seus exércitos que pode ser contado em dezenas de milhões, também existem muitos interesses comerciais por esta área. Isso significa que devemos prestar todo o auxilio possível para nossos novos aliados.
Um oficial pegou uma pilha de papeis com as indicações dos grupos e começou a distribuir.
- A tenente Madison está distribuindo seus grupos e itinerários. Vocês estão aqui porque como em todos os países da federação, os jovens com grande energia mágica estão sendo reunidos para a recém-adaptada instituição de Scholomance[7]. Vamos dividir os grupos que irão a cada escola fazer uma pequena palestra sobre os Arcanos e os feiticeiros em geral. Alguns vão para escolas mais afastadas outros mais perto. Nosso objetivo é mostrar sua formação e criar confiança em nossas tropas. Vocês irão acompanhados de um pequeno esquadrão de controle e faremos uma vistoria de rotina em todas as classes à procura de algum possível espião infiltrado. Quero o nome de todos os alunos ausentes para que um esquadrão seja enviado imediatamente para uma averiguação em suas residências.
- O que? – Kazam reclamou balançando suas ordens. – Eu vou ficar no quartel? Eu vou perder toda a ação.
- Apesar de suas habilidades você é só um colaborador, não é um cadete efetivo. – tenente Madison bronqueou. – Da próxima vez, tome providencias e se aliste. Além disso, recebemos uma chamada denunciando a existência de um místico não identificado com alto poder destrutivo nas redondezas e aparenta ser uma menina da idade de vocês. Não sabemos o que é e não vamos arriscar.
Kazam deu de ombros e se sentou conformado.
- Quando estiverem fazendo inspeção quero que tenham muito cuidado. Não se deixem enganar por rostos bonitos e inocentes. Já tivemos muitos soldados mortos por Nozas disfarçados de mulheres indefesas e crianças. Qualquer resistência deve ser respondida com força total. Procurem agir com a maior discrição e não se esqueçam de que as pessoas estão assustadas, por aqui nossa divisão já é conhecida como os caçadores de bruxas.
[1] Atizaya. Sânscrito. Maravilhoso, Abundante, melhor.
[2] Império Noza. Oriundo do verbo Nozar baseado na expressão idiomática “Agora, deu-o-nó. E não há quem desate” usada indicando que algum problema ficou ainda mais difícil ou de forma abreviada “dar o nó.” Já indicando que o Império Nozar é um problema.
[3] Arcanos. Nome dado aos magos registrados pelo governo mundial. Tanto os militares quanto os civis que passaram pelo treinamento mágico.
[4] Mineralia. Estado fictício baseado na área do Império Russo, abrangendo os países Eslávicos e estados bálticos, incluindo países como: Rússia, Lituânia, Letônia, Estônia, Finlândia, Cáucaso, Ucrânia, Bielorrússia, Polônia, Moldávia (Bessarábia) e parte da Ásia Central.
[5] Bombas de fragmentação. Elas consistem de um cilindro rígido de metal que se quebra, liberando várias bombas menores, como os cartuchos incendiarios. As bombas menores se espalham por uma área relativamente grande. Existem vários tipos de bombas menores usadas em uma bomba de fragmentação, até mesmo armas químicas. Em alguns casos os cartuchos podem não detonar em um ataque tornando o local perigoso, mesmo após o bombardeio.
[6] Taurus. Estado fictício baseado na área da Anatolia que hoje se encontra a Republica da Turquia, nome foi baseado na cordilheira dos montes Tauro que definiam o local na época do império Bizantino.
[7] Scholomance no folclore Romeno é uma escola de magia negra supostamente situada nas montanhas da Transilvânia próxima a um lago sem nome aonde dorme um dragão, na região da Romênia. É citada no romance Drácula de Bran Stoker.